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Redação Dissertativa


CAPRICHOS DO DESTINO

Fonte: Gazeta do Povo, Alberto Dines


Articulado e cronometrado, o conjunto de ações do governo e do seu partido em defesa do núcleo político da Ação Penal 470, vulgo mensalão, careceu de igual cuidado em matéria de teor.

Na segunda-feira, o STF decidiu castigar com rigor o ex-ministro José Dirceu – figura emblemática do caso –, incluindo o seu encarceramento por quase dois anos. Na terça, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, fez uma candente denúncia sobre as miseráveis condições em que vivem os quase 500 mil presos no país, a terceira maior população carcerária do mundo. Na quarta, o ministro-caçula, Dias Toffoli, sugeriu a conversão em multa das penas que implicassem privação de liberdade. Nesse mesmo dia, em nota oficial, a direção nacional do PT investiu pesadamente contra a suprema corte, contra os paradigmas adotados em suas deliberações e, sobretudo, contra a sua submissão a uma imprensa partidarizada e sensacionalista.

Neste elenco de iniciativas nada surpreendentes, convém destacar o pronunciamento caloroso, humanitário, do ministro Cardozo, que calou fundo e no médio prazo produzirá ações mais eficazes do que a política penitenciária dos governos na última década. Ao contrário dos xiitas do seu partido, o ministro não entrou no mérito do julgamento em curso, não o desqualificou nem contestou o Ministério Público ou o Judiciário, esteios da República. Entre outros méritos, sua fala teve o dom de relembrar a manifestação do antecessor, Tarso Genro, quando em 2005 (em seguida ao assombro causado pelas primeiras revelações do mensalão) teve a ousadia de propor a refundação do Partido dos Trabalhadores.

Legítimo o desconforto do PT e de certas alas do governo federal diante do inédito rigor das condenações; compreensíveis sua perturbação e revolta. Mas, ao investir contra o colégio de magistrados onde milita uma maioria esmagadora de indicados por presidentes petistas, os indignados estão tentando emplacar uma noção de lealdade do tipo “toma lá, dá cá”, não muito distante da corrupção moral.

Embora o ceticismo no tocante ao comportamento da imprensa seja sempre salutar, a nova ofensiva contra a imprensa é absolutamente descabida. Quem está escancarando há mais de 100 dias o circo de horrores contido na Ação Penal 470 é uma emissora estatal, a TV Justiça, cujo sinal é captado e reproduzido integralmente por uma emissora privada, a Globo News. A necessidade de tornar nosso Judiciário mais transparente é antiga reivindicação dos setores mais liberais e progressistas da nossa sociedade, inclusive do PT.

A furiosa arremetida contra o STF parece coisa de ETs, habitantes do mundo da Lua que ignoram a aura de genuína admiração que envolve não apenas o ministro relator Joaquim Barbosa – Zorro sem espada, igualmente idealizado –, mas também os demais ministros e ministras, inclusive o imperturbável revisor Ricardo Lewandowski. Numa sociedade moldada pelas telenovelas, este elenco de sábios voltados para o bem público estabeleceu empatias indeléveis.

Os detratores da suprema corte e do ministro relator esquecem que, na próxima quinta-feira, Dilma Rousseff, primeira mulher a ocupar a Presidência da República, deverá comparecer à posse de Joaquim Barbosa, primeiro negro a ocupar a chefia do Judiciário. Ambos indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Contrariados e sinceramente magoados terão de conviver para sempre com o novo capricho do destino.

Fim

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Redação dissertativa 574: Tema: capricho do destino.Tópicos: redação dissertativa pronta, PT, suprema corte, negro, STF, bem público, comportamento da imprensa, condenações, colégio de magistrados, corrupção moral, política penitenciária, xiitas, julgamento, encarceramento, presos, população carcerária, privação de liberdade, imprensa partidarizada e sensacionalista, mensalão.